terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Hoje até o pão
Que o diabo amassou
Tá caro
A gasolina tá alta
A água, impotável
A cabeça confusa
Hoje, na escola
A aula foi ruim
A tia anda triste
O aluno, com sono
Hoje lá fora
A vida tá osso
O osso tá fraco
E o leite acabou
Hoje o trabalho é
De sol a sol
Alegre ou descontente
Hoje quem tenta sorrir
Vê que falta dente
Falta direito
Hoje e ontem e amanhã
O açoite acontece
Sem você ouvir
O barulho do chicote
E pra quem pensa que acabou
Tem mais
Tem muito mais

domingo, 17 de dezembro de 2017

domingo, 10 de dezembro de 2017

MESTRES - Antes do nome


Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.


Adélia Prado