segunda-feira, 10 de agosto de 2020

 Eu puxo na memória

Mas não consigo

Não sou capaz de lembrar

Quando foi a última vez

Que me senti feliz por ser fruto

Nascido em Pindorama (ou no mundo)


Desde de que a vela aportou

E a minha cara pálida

Desembarcou

Os daqui não vivem

Senão para velar os seus


Das capitanias ao capitão

A coisa só desanda

As pernas, doces,

Pedem arrego


Eu, doce também,

Sento ao lado da dor

Dos aflitos como eu

Semelhantes na fuga, em fuga


Estou cansado por mim

Exausto por eles

Desesperado por nós


A arte que abriga o alento

Tem se contorcido agonizante

Os refúgios estão em chamas

Para onde vamos?


Quem olha pros lados

Tem sofrido ao acordar todo dia


A esperança, última que morre,

Está constipada, febril, mal diagnosticada

E pode, a qualquer momento

Ser enterrada sem atestado de óbito


A esperança e

As pessoas precisam de espaço

Fora das covas

Longe do IML


Sabe, eu nem te conheço, José

Mas e agora?

Furaram um poço

Em mim


Eu sei, eu sinto


Quando percebi,

já faltava um tanto de carne

um tanto de ossos

um tanto de órgãos


Não sei bem onde

Ou o quê


Mas no fundo poço

Está lá perdida


Essa parte essencial


 dia desses 

tossi

em segredo

baixinho


que ninguém me ouça!