segunda-feira, 10 de agosto de 2020

 Eu puxo na memória

Mas não consigo

Não sou capaz de lembrar

Quando foi a última vez

Que me senti feliz por ser fruto

Nascido em Pindorama (ou no mundo)


Desde de que a vela aportou

E a minha cara pálida

Desembarcou

Os daqui não vivem

Senão para velar os seus


Das capitanias ao capitão

A coisa só desanda

As pernas, doces,

Pedem arrego


Eu, doce também,

Sento ao lado da dor

Dos aflitos como eu

Semelhantes na fuga, em fuga


Estou cansado por mim

Exausto por eles

Desesperado por nós


A arte que abriga o alento

Tem se contorcido agonizante

Os refúgios estão em chamas

Para onde vamos?


Quem olha pros lados

Tem sofrido ao acordar todo dia


A esperança, última que morre,

Está constipada, febril, mal diagnosticada

E pode, a qualquer momento

Ser enterrada sem atestado de óbito


A esperança e

As pessoas precisam de espaço

Fora das covas

Longe do IML


Sabe, eu nem te conheço, José

Mas e agora?

Furaram um poço

Em mim


Eu sei, eu sinto


Quando percebi,

já faltava um tanto de carne

um tanto de ossos

um tanto de órgãos


Não sei bem onde

Ou o quê


Mas no fundo poço

Está lá perdida


Essa parte essencial


 dia desses 

tossi

em segredo

baixinho


que ninguém me ouça!

segunda-feira, 11 de março de 2019

VERÃO


Lá fora tem um sol
Um solão de rachar mamoma
Que me puxa a água
De dentro, para fora

Me faz escorrer em gotas

Se me lambo
Digo, se lambo a água que escorre de mim
Sinto sal na boca

Lembro nessas horas...

A água de dentro é mar
E a lua remexe a maré
Subcutânea

O sol que digo tá longe
Mas me queima todo

Eu ando ardido de sol
Pele descamando
Em carne viva

Eu ando ardido

Vou sempre pela sombra
Me esgueirando por debaixo
Das copas das árvores

Em vão

O sol me encontra
E me sapeca
A mão na bunda

Ele, de longe, ri da minha cara
Eu não vejo
Não consigo
Mas eu percebo

Quando chega a noite
E os alvéolos oxigenam minha vergonha
Eu penso, inocente
Que a tranquilidade está aqui

(inspira, expira)

Vou fechando os olhos
Na montante
E na jusante
Da falsa calmaria

No outro dia, acordo molhado

Se pela manhã
O sol me come a pêlo
À noitinha
A lua me ilude com carinhos

Neste caso, não há o que fazer
Aguardo o outono.

domingo, 7 de outubro de 2018

Vai! - disse-me a pedra - Vai!
Vai! - disse-me o pé - Anda!
E eu fui
De novo, andei
E de novo
E mais outra vez
Até suar o pé na pedra dura
Regar com água mole a planta dos pés
Para que não faltem frutos
Nem pegadas
Nesse meu caminho torto
Tô na vida a passeio...

domingo, 7 de janeiro de 2018

MESTRES - Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta. 
E lastimava, ignorante, a falta. 
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência. 
A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres, 
porque a ausência, essa ausência assimilada, 
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

MESTRES - A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

João Cabral de Melo Neto