terça-feira, 26 de julho de 2011

O CRACHÁ

Imagem retirada de http://segurancaprivadadobrasil.wordpress.com/2010/06/02/cracha-havendo-regulamentacao-o-uso-e-obrigatorio/

Um passo e outro e mais um e mais outros e muito mais. O jovem uniformizado andava decidido e fazia com que o som de seus pés ecoasse por toda a rua. O rapaz? Não. Ele não tinha nada de especial. Pelo contrário, sua aparência era tediosamente comum: estatura comum, cabelos comuns, mãos comuns, olhos, dentes, lábios, orelhas, corpo, tudo comum, ordinário. Mas seu andar... Pode parecer besteira, pois ele, como todos os outros, não fazia nada além de colocar um pé na frente do outro balançando os braços, mas aquele passo tinha algo de muito grandioso, algo que superava o próprio passo. O jovem, apesar de jovem, caminhava com uma determinação assombrosa. Ele, absolutamente, conhecia o seu destino, não só conhecia como marchava em direção a ele.
Isso, o passo, saltava aos olhos de todos ao redor. Foi o que se pode chamar de “parar o trânsito”, até que toda aquela pompa e grandiosidade se viu obrigada a estacar, estancando a determinação hemorrágica. O jovem se viu. Não, exatamente, a ele, mas a outro garoto absurdamente parecido, absurdamente comum. Os dois param o mundo por alguns instantes para que se pudessem analisar melhor. E o fizeram. Permaneceram um bom tempo a se admirar, encantados com tanta normalidade. Era como se a imagem refletida saísse do espelho e viesse cumprimentar. Essa coisa de se ver, logicamente, causa muitas sensações, tantas que não se pode descrever, é preciso sentir! Os sentidos fizeram confusão da determinação e o jovem confuso pensou não ser realmente determinado, perdeu-se na rota planejada e, pior, acreditou ter-se apaixonado pelo garoto que lhe impedira a passagem, quando, na verdade,      sentia apenas o mais profundo e sincero amor-próprio. Sim! Pois naquele momento em que o mundo estivera pausado, ele, com seu uniforme roxo, se permitiu encantar não pelo outro, mas pelo que dele havia no outro, e estaria, até hoje ,cego de amor se, no segundo seguinte, o garoto não tivesse seguido seu caminho, deixando-o cabisbaixo na esquina onde se esbarraram, esquecido a olhar para o pedaço de papel que pendia, oferecido, do seu pescoço.
O crachá balançava, não tanto quanto seu braço enquanto caminhava, porém com um remelexo tranqüilo e delicioso, diante do peito. Seus olhos focados podiam ler o nome. Naquele momento era tudo o que precisava, algo que o identificasse. No entanto, o nome não dizia muito. Buscava, agora, algo que novamente lhe indicasse o caminho, pois havia descoberto que, depois de tantos segundos admirando-se, ele esquecera de ser quem é, e isso fez com que esquecesse o que é. O jovem teve amnésia em uma esquina da vida. Mas, agora, o mundo girava. E a cada volta que o mundo dava o jovem ficava menos jovem. Então, envelhecendo lentamente, ele se perguntava por que parara na esquina. E, justo no momento em que mais lhe deviam ser úteis, seu uniforme e seu crachá se omitiram. Aquele não era o momento para uma crise existencial, ele sabia, mas não se conteve. As perguntas pareciam brotar do chão: quem sou? O que sou? Onde estou? Do que gosto? Para onde vou? Ou, ou, ou... Todas as questões terminavam em uma inebriante possibilidade, eram apenas novas alternativas. Ser ou não ser? O jovem sentia-se como Hamlet: perturbado e desconfiado. O que era ruim, por ser jovem, por estar vestindo um uniforme roxo e um crachá. Jovens uniformizados e identificados não deveriam sentir-se como Hamlet.
Os olhos do jovem se mantiveram fixos durante a sua ebulição interrogativa, e no instante crítico, aquele em que esperávamos o pior, ele ergueu a cabeça, contemplativo, e ao fazê-lo, enxergou! Enxergou a esquina, os transeuntes, enxergou o que havia além do umbigo, ou do crachá. Não podia acreditar no que seus olhos viam. O mundo que girava, girava ali, diante dele, bem ao alcance de suas mãos. Maravilhado com este momento romântico de sua história, teve vontade de olhar para trás. Atrás não havia nada, apenas rastros. Porém, ao lado... Ao lado via gente. Gente branca, preta, amarela, gente colorida, por que não? Estes não eram iguais a ele. Havia rostos formados e deformados, e todos, todos sem nenhuma exceção, usavam seus uniformes roxos e seus crachás. Todos, assim como ele, determinados a seguir em frente. Este era o empurrão que lhe faltava! Então, o jovem empertigou-se no seu uniforme roxo, recomeçou a caminhar – o crachá indelével – e foi, comum, como ele só: estatura comum, cabelos comuns, mãos comuns, olhos, dentes, lábios, orelhas, corpo, tudo comum, mas o passo...

Nenhum comentário:

Postar um comentário