quarta-feira, 30 de novembro de 2011

MESTRES - Por que sonhas, Minas?



Minas Gerais: há sempre uma procissão passando, um sino tocando nas igrejas e nos corações, e uma conspiração em curso.
Ah, Minas Gerais: de onde vem essa rua permanente, clandestina, diária, camuflada, subversiva inconfidência?
Vem dos cristãos novos, que se asilaram em tuas cidades e aportuguesaram os nomes suspeitos?
Vem dos negros que fizeram de ti a África-mãe?
E essa tua mania, Minas Gerais, de ser altaneira, de não ficar de joelhos a não ser diante de Deus e dos teus santos de fé, e, ao mesmo tempo, ficar olhando para o chão, para os lados, de nunca encarar o teu interlocutor ou inquisidor, de onde vem teu jeito simulado, Minas Gerais?
Por que sempre parece que tens medo, Minas Gerais?
Por que tua coragem, de dar um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair, vem sempre travestida, disfarçada?
Por que, Minas Gerais?
Amo em ti, Minas Gerais, não apenas essa rebelião que carregas no peito como um vulcão clandestino, amo em ti o culto dos sonhos impossíveis.
A liberdade era a amante mais desejada, mais sonhada de Tiradentes, era seu sonho impossível - e, por ele, Tiradentes morreu.
Teu filho Santos Dumont deu asas ao impossível sonho humano de voar.
E antes de Santos Dumont, o que foi o Aleijadinho, senão um mágico que transformava em realidade impossível sonhos em pedra-sabão?
Minas Gerais: Juscelino plantou uma flor de concreto, a que deu nome de Brasília, no cerrado. Era também a realização do impossível. E teu filho e rei, Pelé, nascido em Três Corações, escolhia os mais tortuosos e difíceis caminhos para o gol, e sempre perseguiu o gol impossível, o único que não conseguiu realizar: o de surpreender o goleiro com um chute de longa distância.
Minas Gerais: amo em ti a contradição.
És barroca em Ouro Preto, Tiradentes, Diamantina, Congonhas e Mariana, e moderna na Pampulha.
Aqui, tu acendes o fogo, incendeias os corações: ali tu és, minas Gerais, a água na fervura, a água apagando o fogo.
Tu és sertão e cidade, és o passado e o presente, és o Rio Doce e rios amargos, trágicos, és um casarão com 38 janelas e és uma casa moderna e ensolarada.
Por que sonhas, Minas Gerais?
E por que, Minas Gerais, quando sorris, quando estás alegre, sempre acabas punindo tua própria alegria, como se ela, como tus sonhos de liberdade, te fosse proibida?
Por que sempre estás pensando que comete um grave pecado, Minas Gerais?
Por que teus filhos rezam mesmo quando são ateus?
Por que, Minas Gerais, por quê?


Roberto Drummond

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Por uma Noite

Ah, esses lábios macios e rosados
Que me fazem feliz por dois segundos,
Quem dera tê-los por uma vida!
Pretensão minha, confesso.
Mas uma noite, por uma mísera noite
Poderiam ser-me gratos
E desfrutar de mim, deixando
Que seu sumo adocicado
Escorra até meu queixo e, dele,
Pingue em gotas de morango
No teu colo desnudado
Para que, então, eu possa limpar-te
Com minha áspera língua de macho conquistado
Sem nenhuma culpa,
Pois sei, mulher, que gostas é de aspereza.
 
Levar-te-ia, não para o céu,
Mas para terra, para o chão
Onde realizaríamos desejos mais que mundanos
Desejos imundos.
E já deitado, descobria que
Não tens apenas os lábios rosados
És toda rosada, brutalmente delicada
De coxas grossas,
Firmes e flácidas na medida certa
Peitos pequenos,
Como que enformados na palma da minha mão
E nádegas suaves,
Deslizado carinhosas sobre minha perna.
 
Se fosses minha, mulher
Não por uma vida,
Esta ousadia, abandonei há duas estrofes.
Se te entregasses a mim por uma noite
Deixaria pra ti o teu coração
E roubaria pedaços da tua carne macia,
Dos teus cabelos negros, dos teus olhos de turmalina
Esconderia tudo debaixo da
Minha primeira camada de pele
E me despediria com um sorriso satisfeito,
De homem que abre mão do amor
Por uma noite com a mulher amada.

Matheus Borelli