quarta-feira, 1 de março de 2017

Sobre aquilo que chamo LAR


Ei, chega mais perto. Vou te contar a história da minha casa. É, meu cantinho telhado de tijolo e areia. Sabe, a casa é o contrário da rua. A casa é o calor em dias frios... e o frescor dos dias quentes, porque tem sombra, né? Daqui de dentro quase ninguém me vê: o que é ótimo. O problema é que eu também acabo não enxergando muito. Não fosse por uma janela ou outra, que abro de vez em nunca, não sentiria nem o cheiro de terra quando a chuva cai e molha tudo.
Quem passa aqui em frente, só vê o jardim. Bem cuidado, viu! Um jardinzão! Verde que até dói o olho. O bom daqui é que não tem muro alto, portão eletrônico, é tudo simples, então, se alguém quiser, mesmo, entrar, vai ter que batalhar um pouco, quebrar um vidro ou dois, mas acaba conseguindo. Agora, olhar de fora e bisbilhotar, não dá. Coloquei cortina grossa nas janelas. Sabe, a casa é o contrário da rua. Na rua tudo é medo. É gente correndo com medo de chegar atrasado para vida, é gente olhando para o outro, porque não tem espelho, fazer o quê? Tem gente até que anda com cara de apavorado por aí. Vai dizer que gente com medo não te dá medo?! Gente com medo é aterrorizante! Isso é tática, faz cara de assustado e espera, ninguém chega perto e, quando chega, vem todo macio, pisando em ovos para não despertar mais o medo do amedrontado.
Aqui dentro estou protegido do alvoroço da rua. Aqui me escondo do sol que ofusca e da noite que esconde. Minha casa me abraça, mãe que embala o recém-nascido, saído do conforto do útero para o desalinho do oxigênio que entra pelo nariz puxado pelo pulmão.

VAN GOGH, V. Quarto em Arles, 1888. 

Se você ainda não percebeu, isso aqui é tudo metáfora. Palavra bonita escrita para significar outra coisa que se entende sem deixar entender. Gosto de escrever assim porque me sinto poeta, e faço das palavras buscadas, bem buscadas, rebuscadas, meu lar. Mas não se avexe, no fim das contas sou é literal. Gosto de deixar as coisas bem claras porque o dito pelo não dito é um enrosco que só. Teve vezes, na vida, que tentei morar na verdade, não deu. Sou doce demais, preocupado demais para isso. Já tentei também fazer da mentira a minha casa. Pior ainda! Enfiei os pés pelas mãos e acabei mandando as visitas embora a gritos e pontapés. Atualmente, estou por aí, perdido nesse mercadão imobiliário. Procurei vaga no bom humor, no humor ácido, na piada atravessada e entendi que sou sem graça, só vou aceitar meus chistes depois dos cinquenta. Procurei lar na paz de espírito, na consciência elevada, fui iogue, tântrico, vegetariano, vegano, Vegeta, Goku... só não fui mesmo Dalai, porque lama sobrou na bagunça meu terreno. Procurei casa aqui, ali, nos outros, os outros já estavam cheios de si. A gente é muita coisa.
Daí, fui meio que procurando casa na medida. Aquele que fecha mas abre. Estou nessa ainda de procurar a casa ideal e acho que daqui uns anos eu encontro uma que deve me servir por um tempo, até eu virar outro. Enquanto isso, aqui na rua, vou fazendo amizade com a vizinhança. Sorrio para alguns, rio de algumas gracinhas, que são boas, inclusive, não rio à toa, não. Quer dizer, às vezes rio à toa, mar não. Mar só para quem merece. Tem gente aqui de perto que deixo entrar no meu puxadinho. Menina, que medo que dá, né?! Colocar gente para dentro, mas tem gente que conquista espaço, vem sentando na sala de visitas com a perninha fechada e de repente já pode até se esparramar na cama. Tem gente que invade, mas não sei... não por mal. Não para incomodar, mas porque esse terreno da metáfora não é bem limitado, as casas se cruzam, chega uma hora que a gente não sabe na casa de quem está entrando. Tem hora que a gente não sabe qual casa é a nossa.
Para finalizar isso de metáfora, que já deve estar chato, pensei nos Três Porquinhos. Acredita? T-r-ê-s - P-o-r-q-u-i-n-h-o-s. Sim! Já parou para pensar na metáfora sobre o medo que não é essa história? Sobre como o medo protege e priva. Os dois que não tinham medo, ou que não se preocupam com ele, viviam mais felizes, mas uma vez diante do pânico, viram suas frágeis casas desmoronarem. O outro, viveu mais sisudo, austero, firme o bastante para não deixar sua casa se abalar nem sob a mais intensa investida do mau, do lobo, o mau. Eles contavam isso para gente quando a gente era pequeno, esse povo doido! Com vestes de moralidade, de trabalho que foi recompensado. Mas, no fundo, isso é aviso: criança, tenha medo. Eu tive. Eu tenho. E é por isso que, como vocês, mantenho minhas portas trancadas, porque nunca se sabe quem é o lobo.

Sabe, a casa é o contrário da rua. Mas uma não existe sem a outra.

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