terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Hoje até o pão
Que o diabo amassou
Tá caro
A gasolina tá alta
A água, impotável
A cabeça confusa
Hoje, na escola
A aula foi ruim
A tia anda triste
O aluno, com sono
Hoje lá fora
A vida tá osso
O osso tá fraco
E o leite acabou
Hoje o trabalho é
De sol a sol
Alegre ou descontente
Hoje quem tenta sorrir
Vê que falta dente
Falta direito
Hoje e ontem e amanhã
O açoite acontece
Sem você ouvir
O barulho do chicote
E pra quem pensa que acabou
Tem mais
Tem muito mais

domingo, 17 de dezembro de 2017

domingo, 10 de dezembro de 2017

MESTRES - Antes do nome


Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.


Adélia Prado

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Omulú

Um dia, quando você chegar
Eu estarei ali
Bem ali, a sua espera
Os olhos úmidos
A boca aguada

Neste dia, então, usarei roupas claras
Ou roupa nenhuma
E sorrirei sutilmente
Monalisamente

Avisa quando estiver vindo
Pra que eu passe um café
Sirva alguns quitutes
Deixa a casa limpa
Cabelos bem penteados

Quero te receber com honras
Tudo o que você merece
Tudo o que nós, juntos, merecemos
No dia em que você chegar

Abrirei a porta
Ao fundo, boa música
Seja lá o que isso signifique
De que música gosta?
Sim, essa!
Essa tocará

Traga algo
Um bolo, talvez
Chocolates
Amo chocolates

Você entrará com olhos de curiosidade
Já nos conhecemos,
Mas esta chegada será nova
Única
Última
Sorrirá de volta
Cara de quem não entende

Nos abraçaremos forte, demorado
E sem comer ou beber ou conversar
Sairemos
Deixando pra trás a casa limpa
O café, quitutes, chocolates
Não, chocolates, não
Levaremos os chocolates

E partiremos juntos
Sem volta
Chocolates na mão
Amor nos olhos
E nada adiante
A não ser a paz

No dia em que chegar
Seremos apenas

E nada mais

Atestado de óbvio

Tem vida aqui
dizem
Tem vida
Sangue que esquenta
o corpo
quando corre

Tem alma
acho
que sai da boca
E diz
Palavra
com significado
às vezes

Tem sombra
quando se acorda
no meio da
Noite
e luz quando
o umbigo
brilha ancestral

Tem sabedoria
no céu estrelado
Da boca
astrologia oral
Língua que
lambe
Cuspe que
Lubrifica

Tem calor
em dias frios
Pressão atmosférica
Pressão arterial
pressão
repressão
Chuva torrencial
de águas turvas

Tem vida aqui
pensam


ledo engano.

sábado, 18 de novembro de 2017

ESPERANÇA

O caminho daqui até
Mim
É longo
As ruas, as rugas, as vias
Trânsito intenso
Sons
Silêncio
Inelutável urbanidade mental
Jazo nos outdoors
Em todos
Imagens mudas
Calçadas cheias de mim
Trombo,
Busco passagem
Tento apertar o passo
Passo
Passo
Paro
No vermelho, paro
Verde, amarelo, paro
Roxo, cinza, preto
Tudo assim tão potencial
O caminho daqui até mim
É infinito
Inexistente
Insustentável
Parado, as pernas doces
O caminho cansa
Alguém me arranja um gole d’água?

Matheus Borelli

terça-feira, 7 de março de 2017

Amor XXI

Faltou
Faltou
Que delícia de ausência
Sente!
Olha, como descola
Enlouqueceu
Que bom.
Todos
Todos, repara
Mutilados a procura
Alma gemea não é,
Nããoo....
Não pode ser amor
Romântico,
É, sim, o não-amor
pós-
moderno.
Se é alma,
Não se sabe
Ao certo,
Mas é gêmeo
i d ê n t i c o
É torto amando torto
E caco amando
Corte.
Amar XXI
É amar ausente

Te amo,
Duvida?

domingo, 5 de março de 2017

Remédio

Contra ti não há
Não há
Não há melhor remédio
Que te ver passar

Te enxergo já de longe
Não posso evitar
É uma dor
Uma tristeza
Alívio que dá

O peito nem remexe
E a palma da mão, não
Não sua

Tá todo se engraçando
Com outro que não eu
Graças a Deus

Remédio contra ti
Eu não posso pagar
Então, chega mais perto
Esperto
Pra eu poder me curar

Você não tá entendendo
Deixe-me explicar
Eu não quero retorno
Quero é me livrar

Amor, aqui contigo
Eu só me machuquei
Enfim, vou-me embora
Mas saiba

Eu não te perdoei

sábado, 4 de março de 2017

Um fim nunca é um fim, mas sempre é.



Na vida não sou raiz, tampouco sou tronco. Na vida sou folha que despenca no outono ou flor que desabrocha na primavera. Voo fácil, com brisa leve. Às vezes seco, quase morro, sempre morro! Às vezes germino, semeio, às vezes pólen. Tem vento forte agora, me jogando pra longe. Vou-me pros lados de lá, renascer noutro lugar. Vou me entortar, mudar de cores. Foi bom enquanto estive. Brotei ouro, prata e zinco nesta terra de minério preto e de raízes raras. Vou, né?! Tem que ir! Mas jamais sairia à francesa, saio bem à brasileira, isso, sim! Sambando miúdo, fazendo estardalhaço e rindo de quem fica, mesmo que no fundo, queria eu também ficar um pouco mais. Não dou conta desse vale me cuspindo, então me tiro daqui nas próprias pernas. Cidade dengosa, vai me fazer saudade. Essa saudade que só quem fala “SAUDADE” pode sentir. Estou indo, mas as folhas que caíram, deixo pra adubar a tua pedra. As flores? Coloca as flores no cabelo, assim o que plantei aqui vai te deixar ainda mais bela!

quinta-feira, 2 de março de 2017

M O R R A, A M O R

Aqui, onde a gente tá, tudo o que é vivo
Morre
Sob essas duas condições,
Estar aqui
E estar vivo,
É inevitável:
                MORRE-SE.
O sangue, se a coisa tiver sangue,
Decanta
A carne,
Apodrece
A folha,
D e s p e n c
                     a

Deste lado de cá o fim é certo.

O cão que te ameaça na rua,
Um dia bate as botas
O homem que te ameaça na rua, também
Amém
A professora que não te deixa ir ao banheiro,
Coitada, tem seu fim
A mãe que te nina,
...
sinto informar
...

Mas tem coisa
(E isso é que é o importante do poeminha)
Que não morre nem a golpes de porrete
Amor, te digo, ouça!
Amor!
Amor não morre

Sim, também eu, que fazer?
Também o poeta sujo e maltrapilho
Perdido nesta contemporânea Brasileia
Escreve de amor
Porque sente, oras!
Porque sinto.

Amor
Difícil dizer
Entender
Explicar

Amor  n ã o  morre
Porque que        vive
Num aqui que não é esse em que a gente tá

Ele tá aqui
Quer dizer, ele chove aqui
Mas ele brota e anuvia o céu do lado de lá

Um lá que é  quase aqui, que chega a encostar
Faz um arrepio gostoso na malha fina que
S E P A R A
Um lado do outro

No fim é simples
Amor não morre, porque mesmo VIVO,
Do jeito que é
Ele não tá nesse aqui
Que você conhece
Ou eu
Ele, ela

O amor
Ê, amor!
O amor quando nasce
Foge do aqui e
Já nasce no
S E M P R E

Maldito seja!
Morre tudo
E ele continua

Os carinhos, beijos,
Já tá tudo empacotado
Comendo capim pela raiz,
Mas o amor
.
.
.

O que esfola
É isso
A morte não seria tão morrida
Tão mortífera
Tão mortal
Se tudo que há do lado de cá morresse
E esse tal amor, bandido,
Morresse junto.

Amor
Vem pra cá

Morra, amor!

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sobre aquilo que chamo LAR


Ei, chega mais perto. Vou te contar a história da minha casa. É, meu cantinho telhado de tijolo e areia. Sabe, a casa é o contrário da rua. A casa é o calor em dias frios... e o frescor dos dias quentes, porque tem sombra, né? Daqui de dentro quase ninguém me vê: o que é ótimo. O problema é que eu também acabo não enxergando muito. Não fosse por uma janela ou outra, que abro de vez em nunca, não sentiria nem o cheiro de terra quando a chuva cai e molha tudo.
Quem passa aqui em frente, só vê o jardim. Bem cuidado, viu! Um jardinzão! Verde que até dói o olho. O bom daqui é que não tem muro alto, portão eletrônico, é tudo simples, então, se alguém quiser, mesmo, entrar, vai ter que batalhar um pouco, quebrar um vidro ou dois, mas acaba conseguindo. Agora, olhar de fora e bisbilhotar, não dá. Coloquei cortina grossa nas janelas. Sabe, a casa é o contrário da rua. Na rua tudo é medo. É gente correndo com medo de chegar atrasado para vida, é gente olhando para o outro, porque não tem espelho, fazer o quê? Tem gente até que anda com cara de apavorado por aí. Vai dizer que gente com medo não te dá medo?! Gente com medo é aterrorizante! Isso é tática, faz cara de assustado e espera, ninguém chega perto e, quando chega, vem todo macio, pisando em ovos para não despertar mais o medo do amedrontado.
Aqui dentro estou protegido do alvoroço da rua. Aqui me escondo do sol que ofusca e da noite que esconde. Minha casa me abraça, mãe que embala o recém-nascido, saído do conforto do útero para o desalinho do oxigênio que entra pelo nariz puxado pelo pulmão.

VAN GOGH, V. Quarto em Arles, 1888. 

Se você ainda não percebeu, isso aqui é tudo metáfora. Palavra bonita escrita para significar outra coisa que se entende sem deixar entender. Gosto de escrever assim porque me sinto poeta, e faço das palavras buscadas, bem buscadas, rebuscadas, meu lar. Mas não se avexe, no fim das contas sou é literal. Gosto de deixar as coisas bem claras porque o dito pelo não dito é um enrosco que só. Teve vezes, na vida, que tentei morar na verdade, não deu. Sou doce demais, preocupado demais para isso. Já tentei também fazer da mentira a minha casa. Pior ainda! Enfiei os pés pelas mãos e acabei mandando as visitas embora a gritos e pontapés. Atualmente, estou por aí, perdido nesse mercadão imobiliário. Procurei vaga no bom humor, no humor ácido, na piada atravessada e entendi que sou sem graça, só vou aceitar meus chistes depois dos cinquenta. Procurei lar na paz de espírito, na consciência elevada, fui iogue, tântrico, vegetariano, vegano, Vegeta, Goku... só não fui mesmo Dalai, porque lama sobrou na bagunça meu terreno. Procurei casa aqui, ali, nos outros, os outros já estavam cheios de si. A gente é muita coisa.
Daí, fui meio que procurando casa na medida. Aquele que fecha mas abre. Estou nessa ainda de procurar a casa ideal e acho que daqui uns anos eu encontro uma que deve me servir por um tempo, até eu virar outro. Enquanto isso, aqui na rua, vou fazendo amizade com a vizinhança. Sorrio para alguns, rio de algumas gracinhas, que são boas, inclusive, não rio à toa, não. Quer dizer, às vezes rio à toa, mar não. Mar só para quem merece. Tem gente aqui de perto que deixo entrar no meu puxadinho. Menina, que medo que dá, né?! Colocar gente para dentro, mas tem gente que conquista espaço, vem sentando na sala de visitas com a perninha fechada e de repente já pode até se esparramar na cama. Tem gente que invade, mas não sei... não por mal. Não para incomodar, mas porque esse terreno da metáfora não é bem limitado, as casas se cruzam, chega uma hora que a gente não sabe na casa de quem está entrando. Tem hora que a gente não sabe qual casa é a nossa.
Para finalizar isso de metáfora, que já deve estar chato, pensei nos Três Porquinhos. Acredita? T-r-ê-s - P-o-r-q-u-i-n-h-o-s. Sim! Já parou para pensar na metáfora sobre o medo que não é essa história? Sobre como o medo protege e priva. Os dois que não tinham medo, ou que não se preocupam com ele, viviam mais felizes, mas uma vez diante do pânico, viram suas frágeis casas desmoronarem. O outro, viveu mais sisudo, austero, firme o bastante para não deixar sua casa se abalar nem sob a mais intensa investida do mau, do lobo, o mau. Eles contavam isso para gente quando a gente era pequeno, esse povo doido! Com vestes de moralidade, de trabalho que foi recompensado. Mas, no fundo, isso é aviso: criança, tenha medo. Eu tive. Eu tenho. E é por isso que, como vocês, mantenho minhas portas trancadas, porque nunca se sabe quem é o lobo.

Sabe, a casa é o contrário da rua. Mas uma não existe sem a outra.